O Pato Que Canta
Bashô passeava com seu discípulo ao longo de um rio. Os dois avistam um pato a procura de comida. Perturbado, o pato alça vôo e mestre e discípulo acompanham com os olhos.
Bashô e o discípulo entreolharam-se em silêncio e, de súbito, bruscamente, o mestre beliscou o nariz do discípulo, que urrou de dor.
Disse Basho então:
- Oh! aqui está um pato que canta!
O discípulo tinha os olhos postos no pato, que voava.
Deves olhar para ti mesmo, queria dizer-lhe o mestre.
Quem tem bom gosto?
Outro koan. Um mestre oferece um melão a um discípulo.
- Que te parece o melão? - pergunta-lhe. - Tem bom gosto?
- Sim, sim ! Muito bom gosto! - ouve o discípulo.
O mestre faz então outra pergunta:
- O que é que tem bom gosto, o melão ou a língua?
O discípulo reflete, confunde-se e retruca:
- O sabor provém da interdependência, não só do gosto do melão e da língua, mas igualmente da interdependência da...
- Idiota! Tríplice idiota! - atalha o mestre, colérico. - Por que complicas o teu espírito? O melão é bom. Gosto se explica por esse único aspecto. A sensação é boa. É o suficiente.
Os pensamentos pessoais limitam, categorizam e complicam.
Haikais e outros ais
Breve brisa
Leve folha
Manhã de outono
Findo o inverno
Renasce bela
Branca flor de cerejeira
Noite sem lua
Dama-da-noite
Entorpece a alma
Barulho de água
Lágrimas, chuva
Árvores choram
Em segredo
Segrego meus sonhos
Do seu fato
Casa às costas
O caracol desliza
Sob gotas de orvalho
O vento brinca
Com a direção da chuva
Noite sem estrelas
Aranhas e bromélias
Sob a luz do sol
Beleza contrastada
O som do calhau, o som do bambu
Um dia em que Kyogen varria o jardim à frente do eremitério, rolou montanha abaixo um calhauzinho que foi bater num bambu. O som fê-lo despertar e ele, assim, obteve o satori perfeito.No rinzai, é costume dizer que o satori chega de repente. Mas o que é o satori? Antes dessa experiência, ele alimentara sempre uma dúvida. Dia após dia, não se sentia satisfeito. Seu mestre, Issan, lhe dizia:- És inteligente mas leste sutras em demasia. Tua inteligência do zen provém da memória dos sutras! Não podes obter o shiho (a transmissão, a certificação do mestre ao discípulo). Procura retornar ao período do teu nascimento, quando não podias compreender em que direção ficavam o leste e o oeste, e volta a falar-me nisso.Ele queimou incontinenti todos os seus livros, seus sutras, seus cadernos. Chorou. Deixou o dojo do mestre, foi para a montanha e passou a viver sozinho. Fez zazen sozinho durante um ano, dois anos. Um dia, escutando o som do bambu ferido por uma pedra, despertou de todo e suas dúvidas tiveram fim: "Fui estúpido até hoje". Compôs um poema: " Tudo esqueci. Dei cabo das idéias que me atochavam o espírito. Minhas complicações tiveram fim."Fez sampai na direção do mestre, Issan, e queimou incenso. Enviou o poema ao mestre, que disse: "Esse rapaz, meu discípulo, compreendeu".E concedeu-lhe o shiho.Inspirado nessa história, Deichi fez um poema:"Pelo som de um choqueEle esqueceu todo seu saber".Deste nada restou. O vazio total. Mas o satori não dependia do seu cérebro. Não chegou de repente. Kyogen não o obteve por intermédio do bambu, nem por intermédio do vento. Nem se diga que o obteve nesse único instante. Não foi de repente.
Algumas pétalas sobre o tatami
Rikyu, o fundador da cerimônia do chá da escola de Chanoyu, recebeu um dia, de presente, flores belíssimas: tsuba kides, da parte do chefe do templo vizinho de Daitoku-ji, em Quioto.Trouxe-lhas um jovem monge, que, bem defronte da sala de chá, deixou cair as belas flores no chão. Todas as pétalas se destacaram de golpe, ficando apenas os caules. O jovem monge, confuso, desculpou-se junto de Rikyu, que respondeu:- Entra na sala de chá.Defronte do nicho, o tokonoma, Rikyu colocou apenas um vaso de ikebana vazio. A seguir, enfiou nele os caules das flores, e, no chão, sobre o tatami, por toda a volta do vaso, dispôs hamoniosamente as pétalas.Era muito bonito, natural, simples. Disse,então, Rikyu ao mongezinho:- Quando me trouxeste essas flores, elas era shiki: shiki soku ze shiki (o fenômeno é o fenômeno). Ao caírem, tornaram-se ku, já não haviam flores: shiki soku ze ku (o fenômeno é ku, nada). De acordo com o senso comum, elas poderiam ter continuado tais e quais: fu soku ze ku, ku é ku (o nada é nada). Agora porém, embelezaram o aposento: ku soku ze shiki, ku - nada é o fenômeno."Com nada, este aposento ficou lindo, muito mais bonito do que se se empregassem inúmeros elementos de decoração. Apenas algumas pétalas dispostas sobre o tatami, ao redor de um vaso sem flores no tokonoma".Essa história reflete o espírito da cerimônia do chá.
Uma tigela, o vazio
Eis aqui uma anedota famosa concernente ao mestre rinzai Ikkyu, que viveu, aproximadamente, há 03 ou 04 séculos.Ikkyu era, então, um monge muito jovem que vivia num templo zen, onde vivia também seu irmão. Um belo dia, esse último deixou cair no chão uma tigela da cerimônia do chá, que se quebrou; a tigela era ainda ais preciosa porque fora presente do imperador. O chefe do templo admoestou-o severamente, fazendo chorar o mongezinho.Ikkyu, todavia, recomendou-lhe que não se preocupasse:- Tenho sabedoria. Posso encontrar uma solução.Juntou os pedaços da cerâmica, colocou-os na manga do seu kolomo e foi descansar no jardim do templo, enquanto esperava, pachorrento, o regresso do mestre. Tanto que o avistou, foi ao seu encontro e propôs-lhe um mondo:- Mestre, os homens nascidos neste mundo morrem ou não morrem?- Morrem, decerto - respondeu o mestre. - O próprio Buda morreu.- Compreendo - volveu Ikkyu - , mas no que respeita às outras existências, os minerais ou objetos também estão destinados a morrer?- É claro! - reponde o mestre - Todas as coisas que têm forma devem morrer necessariamente, quando surge o momento.- Compreendo - disse Ikkyu. - Em suma, como tudo é perecível, não deveríamos precisar chorar nem lastimar o que já não existe, nem sequer zangar-nos com o destino.- Está visto que não! Aonde queres chegar? - inquiriu o mestre.Ikkyu tirou da manga do kolomo os destroços da tigela, que apresentou ao mestre. Este ficou boquiaberto.
O sabor do zen
Minagawa Shunzaemon, célebre poeta muito apegado à rima e adepto do zen, ouviu falar num famoso mestre zen, Ikkyu, chefe do templo de Daitoku-ji, situado na região dos campos violeta. Desejando tornar-se seu discípulo, foi visitá-lo. À entrada do templo, entabularam o diálogo.Ikkyu perguntou:- Quem és tu?- Um budista - respondeu Minagawa- De onde vens?- Da vossa província...- Ah!... E que tem acontecido ali nos últimos dias?- Os corvos crocitam, os pardais chilream.- E onde crês estar agora?- Nos campos violeta.- Por quê?- As flores, essas glórias da manhã... o áster, o crisântemo, o açafrão...- E quando murcham?- É Myiagino (campo decantado pela beleza das flores de outono)- Que acontece nesses campos?- Ali flui o rio, varrido pelo vento.Estupefato ao ouvir tais palavras, que tinham o sabor do zen, Ikkyu levou-o para seu quarto e ofereceu-lhe chá. Em seguida compôs, de improviso, os seguintes versos:" Um prato delicado eu quisera te dar,Mas ai de mim, o zen nada pode ofertar..."Respondeu o visitante:" O espírito que só pode oferecer-me o nadaé o vazio originalIguaria delicada entre as mais "Profundamente comovido, o mestre concluiu:- Meu filho, aprendeste muito !!!